Cronica de Paulo Santana

Tenho o maior respeito pelas pessoas burras. Porque elas não têm culpa de serem burras. Elas nasceram assim e, pelo que se vê, não têm conserto. Ninguém tem culpa de ser burro, assim como ninguém tem mérito em ser inteligente: ambos já vieram ao mundo assim.

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Mas quero declarar que um dos maiores empecilhos da civilização são os burros. Eles atrasam as relações humanas e são também o maior fator de não produtividade.

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Já notaram que o burro é paciente, resignado e humilde? O burro tem todas as qualidades, menos a inteligência.

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Apesar disso, num mundo em que há muitos burros, é possível que um burro tenha ascensão social. Por exemplo, uma atividade em que é frequente a prosperidade do burro é a política. Há burros que assumem os maiores cargos da República. Há burros que conseguem ser governadores e até presidentes da República. Um dos maiores desastres existentes na sociedade humana se dá quando um burro governa pessoas inteligentes, a revolta entre estes últimos chega à raiva e até ao ódio. Porque não tem maior desgraça do que alguém ser súdito de um burro.

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Entre as diversas espécies de burros, destaca-se uma como a mais irritante: a daquele que além de burro é teimoso. A gente vai e explica ao burro que ele está (novamente) errado e ele não se convence, explana aí então com mais veemência a sua tese absurda. Com o burro teimoso, o melhor mesmo é desistir.

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Dou exemplo de uma burrice pública que tem milhares de seguidores: os que não permitem que os parques e as praças sejam cercados. Não adianta explicar que o mais belo e aprazível parque de Porto Alegre é o Germânia, construído pela Goldsztein e entregue à prefeitura, no Jardim Europa. Ele é inteiramente cercado e fechado à noite e só por isso dá gosto visitá-lo e usufruir de suas esplêndidas benesses naturais e de equipamentos. Mas, quando se prega que os parques têm de ser cercados, sabem o que respondem os burros: “Cercados? Nada de campos de concentração no seio da cidade, os parques têm de ser abertos ao público”. Ou seja, não entra nas cabeças de chumbo dos burros que se quer fechar os parques à noite para que os vândalos não os destruam e abri-los pela manhã até a tardinha para que eles se ofereçam íntegros e benfazejos à população. Não adianta, os burros não entendem.

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E essa burrice que já dura cem anos destrói todos os dias o Parque da Redenção e outras praças da cidade. Porque 95% das depredações nos parques acontecem durante a noite. Mas, enfim, glória à burrice triunfante! Para tristeza dos inteligentes e até de um certo orgulho dos burros.

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